A CONMEBOL faz o suficiente para combater o racismo?
Casos de racismo continuam se repetindo nas competições sul-americanas. A CONMEBOL pune, aplica multas e possui protocolos, mas os episódios não diminuem. As medidas atuais realmente funcionam?
BASTIDORES DO FUTEBOLÚLTIMAS ANÁLISES
Felipe Santana
8/14/20265 min read


A CONMEBOL é conivente com o racismo em suas competições?
Mais um jogo de uma competição sul-americana. Mais uma denúncia de racismo. Mais uma paralisação. Mais um protocolo sendo aplicado.
E depois?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
No empate entre Corinthians e Rosario Central pela Libertadores, o goleiro Hugo Souza relatou ter sido chamado de “macaco” e alvo de outras ofensas racistas vindas da arquibancada.
O árbitro foi comunicado, aplicou o protocolo antirracismo e a partida continuou.
O episódio é grave por si só. Mas se torna ainda mais preocupante porque está longe de ser um caso isolado.
Ano após ano, jogadores e torcedores são vítimas de racismo nas competições organizadas pela CONMEBOL.
Diante disso, uma pergunta precisa ser feita:
as punições aplicadas pela CONMEBOL realmente combatem o racismo ou apenas demonstram que alguma providência foi tomada?
A CONMEBOL pune. Mas a punição funciona?
É importante fazer essa distinção.
Não é correto dizer que a CONMEBOL simplesmente não pune casos de racismo.
O Código Disciplinar da entidade prevê multa mínima de US$ 100 mil para clubes cujos torcedores pratiquem atos discriminatórios. Em caso de reincidência, o valor pode aumentar consideravelmente.
Também existem outras possibilidades de punição, como fechamento parcial do estádio, partidas com portões fechados e restrições à presença de torcedores.
Em 2025, por exemplo, o Talleres recebeu multa de US$ 100 mil após manifestações racistas de seus torcedores contra são-paulinos. O Cerro Porteño também foi multado em US$ 100 mil e teve um setor do estádio fechado após manifestações racistas contra palmeirenses.
Portanto, punições existem.
A questão é saber se elas realmente são capazes de mudar comportamentos.
Quando a multa deixa de ser suficiente
Existe uma diferença entre punir e criar uma consequência capaz de evitar que o problema se repita.
Para clubes que movimentam milhões de dólares durante uma Libertadores, US$ 100 mil certamente não é um valor irrelevante.
Mas será que representa uma consequência suficientemente pesada para transformar o combate ao racismo em uma prioridade absoluta?
A própria CONMEBOL já reconheceu a limitação das multas.
Em abril de 2026, a diretora jurídica da entidade, Montserrat Jiménez, afirmou durante um seminário que as multas não estavam funcionando como instrumento para impedir novos episódios.
Segundo dados apresentados pela própria entidade, foram registrados 18 casos de discriminação em cada um dos anos de 2023, 2024 e 2025.
Ou seja: durante três anos, o número não diminuiu.
Se a punição existe, mas os casos continuam acontecendo na mesma proporção, é inevitável questionar sua eficácia.
O clube pode não ter culpa, mas tem responsabilidade
Nenhum clube consegue controlar individualmente a atitude de milhares de torcedores.
Se uma pessoa decide cometer um ato racista, a responsabilidade direta é dela.
Mas isso não significa que o clube possa simplesmente afirmar que aquele torcedor não representa a instituição e encerrar o assunto.
A partir do momento em que uma pessoa entra no estádio, o clube precisa fazer tudo o que estiver ao seu alcance para garantir a segurança de quem está ali.
E essa responsabilidade não termina quando o árbitro apita o fim do jogo.
Diante de uma denúncia de racismo, o clube precisa colaborar para identificar o responsável, disponibilizar imagens às autoridades, auxiliar nas investigações e, quando o agressor for identificado, impedir que ele volte ao estádio.
O clube pode não ser culpado pelo ato, mas precisa ser responsável pela resposta.
O protocolo não pode ser apenas uma formalidade
A existência de um protocolo antirracismo é importante.
Quando um jogador denuncia uma ofensa, o árbitro pode interromper a partida e seguir os procedimentos estabelecidos.
Mas o protocolo precisa ser o começo da resposta, não o fim.
Se vemos o árbitro fazendo o gesto antirracismo, ouvimos um anúncio no estádio, esperamos alguns minutos e depois assistimos ao jogo continuar normalmente, existe o risco de transformar uma ferramenta importante em algo meramente simbólico.
A mensagem precisa ser muito mais forte:
se o racismo continuar, o futebol não pode simplesmente continuar como se nada tivesse acontecido.
Caso contrário, qual é a consequência imediata para quem praticou o ato?
O jogo parou por alguns minutos e depois tudo voltou ao normal.
Para um protocolo que pretende demonstrar tolerância zero, isso parece pouco.
É preciso discutir punições esportivas
Se as multas não estão sendo suficientes, talvez tenha chegado o momento de utilizar com maior frequência punições que realmente afetem os clubes.
Perda de mando de campo. Jogos com portões fechados. Proibição da presença da torcida.
E, em casos graves ou de reincidência, deveria existir pelo menos a discussão sobre perda de pontos.
São medidas duras.
Mas a reincidência também precisa ter peso.
Quanto mais episódios acontecerem envolvendo a torcida de um clube, maior deveria ser a consequência.
Isso criaria um incentivo muito maior para que as próprias instituições investissem em prevenção, câmeras, identificação de torcedores e colaboração com as autoridades.
Não se trata de transformar o clube no autor do ato racista.
Trata-se de fazer com que impedir novos episódios também seja uma responsabilidade institucional.
A responsabilidade também é da CONMEBOL
Os clubes precisam fazer sua parte.
Os responsáveis pelos atos precisam ser identificados e responder individualmente.
Mas a CONMEBOL também possui responsabilidade.
Ela organiza a competição, estabelece as regras e determina as consequências.
Campanhas como “Basta de Racismo” são importantes. Protocolos também.
Mas a mensagem de tolerância zero precisa aparecer principalmente quando um episódio realmente acontece.
Se a própria entidade reconhece que determinadas punições não estão produzindo o resultado esperado, cabe a ela buscar alternativas mais eficientes.
Porque reconhecer que uma medida não funciona e continuar dependendo dela não resolve o problema.
Afinal, a CONMEBOL é conivente?
Talvez “conivente” seja uma palavra pesada.
A CONMEBOL possui regras contra discriminação, aplica multas e estabelece protocolos. Portanto, não seria correto simplesmente afirmar que a entidade aceita ou ignora o racismo em suas competições.
Mas existe uma pergunta mais difícil:
quando uma organização sabe que suas medidas não estão funcionando e mesmo assim não consegue criar consequências capazes de mudar esse cenário, até onde vai sua responsabilidade?
Os clubes podem não ser responsáveis pela decisão individual de um torcedor de cometer um ato racista.
Mas são responsáveis pela maneira como respondem ao que acontece dentro de seus estádios.
E a CONMEBOL é responsável pela maneira como responde ao que acontece dentro de suas competições.
Se clubes e entidade realmente defendem tolerância zero contra o racismo, as consequências também precisam demonstrar isso.
Porque os métodos atuais já tiveram tempo suficiente para mostrar seus resultados.
E os episódios continuam acontecendo.
Talvez a maior demonstração de que as punições ainda não são suficientes seja justamente essa: elas existem, mas não parecem estar conseguindo impedir que a história se repita.
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