Abel tem razão? O futebol está doente pela obsessão em ganhar
Se apenas o campeão fez um bom trabalho, todos os outros fracassaram? A fala de Abel Ferreira levanta uma discussão sobre resultados, cobranças e a falta de convicção no futebol brasileiro.
BASTIDORES DO FUTEBOL
8/24/20265 min read


Abel tem razão: o futebol está doente?
Abel Ferreira pode ser muitas coisas.
Pode ser provocador, reclamão, intenso e, para alguns, até difícil de ouvir.
Mas isso não significa que esteja sempre errado.
Recentemente, o treinador do Palmeiras disse que o futebol está doente. Na visão dele, criamos um ambiente obcecado pelo sucesso, em que praticamente só existe valor para quem ganha.
Se venceu, é bom.
Se perdeu, não presta.
Se foi campeão, o trabalho é excelente.
Se terminou em segundo, fracassou.
E talvez Abel tenha tocado em um dos maiores problemas do futebol atual.
Quando o segundo lugar virou vergonha?
O futebol sempre foi sobre ganhar.
Ninguém entra em campo querendo perder e nenhum torcedor comemora uma derrota.
O problema começa quando ganhar deixa de ser o objetivo e passa a ser a única maneira possível de reconhecer um bom trabalho.
Um time pode fazer uma excelente temporada e não ser campeão.
Pode disputar várias competições, chegar longe, evoluir jogadores, construir uma identidade e competir em alto nível.
Ainda assim, pode terminar o ano sem levantar uma taça.
Isso significa automaticamente que tudo deu errado?
Hoje, muitas vezes, parece que sim.
O vice-campeão deixou de ser simplesmente aquele que chegou perto.
Virou o fracassado.
E existe um problema óbvio nessa lógica: somente um pode ganhar.
Se 20 clubes disputam um campeonato, 19 terminarão sem o título.
Os outros 19 fizeram trabalhos ruins?
Claro que não.
Abel tem defeitos. E precisa ser cobrado
Concordar com a fala de Abel não significa colocá-lo acima das críticas.
Ele tem seus defeitos.
Erra escalações, substituições e estratégias como qualquer treinador.
Também pode ser questionado pela maneira como sua equipe joga e pelos resultados que apresenta.
E precisa ser cobrado.
Mas existe uma diferença enorme entre cobrar um treinador e colocar todo o seu trabalho em dúvida cada vez que ele perde.
Abel não precisa mais provar que é um grande treinador.
Os títulos conquistados durante sua passagem pelo Palmeiras já demonstram a qualidade do trabalho desenvolvido.
Isso não significa que será campeão todos os anos.
E talvez seja justamente essa parte que o futebol tenha dificuldade para aceitar.
Recentemente, o Palmeiras perdeu decisões e terminou competições em segundo lugar.
Rapidamente começaram novamente as discussões sobre desgaste, fim de ciclo e necessidade de mudança.
Mas um segundo lugar transforma um grande treinador em um treinador ruim?
Uma final perdida apaga tudo aquilo que foi construído?
É possível questionar o momento do Palmeiras sem concluir que todo o trabalho deixou de prestar.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
Talvez falte convicção no futebol brasileiro
É justamente nesse ponto que a postura da presidente do Palmeiras chama atenção.
Leila Pereira acompanha o dia a dia do clube, conhece aquilo que é realizado internamente e continua demonstrando confiança no trabalho de Abel.
Ela pode estar certa.
Pode estar errada.
O futebol dará essa resposta.
Mas existe algo importante nessa postura: convicção.
E talvez seja justamente isso que esteja faltando no futebol brasileiro.
Todo mundo acredita em projeto quando está ganhando.
Todo dirigente defende planejamento quando o time está na liderança.
Todo mundo confia no treinador depois de dez vitórias consecutivas.
Isso não exige convicção.
A verdadeira convicção aparece quando chega a derrota.
É olhar para um trabalho que você acompanha diariamente, reconhecer que existem problemas que precisam ser corrigidos e, mesmo assim, entender que o caminho continua sendo o correto.
Isso não significa insistir eternamente em algo que claramente não funciona.
Convicção não pode ser confundida com teimosia.
Existem trabalhos ruins.
Existem treinadores que precisam ser demitidos.
Existem ciclos que realmente terminam.
Mas essas decisões deveriam nascer de uma avaliação muito maior do que simplesmente olhar para a tabela e perguntar quem foi campeão.
O título importa. Mas não pode explicar tudo
Futebol profissional é resultado.
Principalmente nos grandes clubes.
Investimentos precisam ser cobrados, jogadores precisam corresponder e treinadores precisam apresentar desempenho.
Mas o título deveria ser parte da avaliação, não toda a avaliação.
Como o time joga?
O elenco evoluiu?
Os jogadores melhoraram?
O clube continua competitivo?
Existe organização?
O treinador ainda consegue transmitir suas ideias?
O grupo acredita no trabalho?
Existem sinais de evolução ou de deterioração?
Essas perguntas também precisam fazer parte da análise.
Porque existe uma diferença enorme entre não ganhar e não funcionar.
E talvez o futebol esteja confundindo as duas coisas.
Primeiro olhamos o placar. Depois criamos a análise
Talvez o problema seja ainda maior.
Não é apenas quem perde que recebe críticas exageradas.
Quem ganha também recebe elogios exagerados.
Uma substituição dá certo?
O treinador é gênio.
Uma contratação marca o gol decisivo?
O dirigente enxergou aquilo que ninguém enxergava.
O time joga mal, mas vence?
Mostrou espírito de campeão.
Agora imagine exatamente a mesma atuação terminando em derrota.
A narrativa provavelmente seria completamente diferente.
A substituição seria absurda.
A contratação seria questionada.
O treinador teria errado na estratégia.
Muitas vezes, primeiro olhamos o resultado.
Depois construímos uma explicação para justificar aquilo que aconteceu.
O problema não está em analisar o placar.
O problema está em permitir que ele explique absolutamente tudo.
E nós, torcedores, também fazemos parte disso
Seria fácil colocar toda a responsabilidade na imprensa, nos dirigentes ou nos treinadores.
Mas nós, torcedores, também ajudamos a construir esse ambiente.
Depois de uma vitória, acreditamos que nosso time pode ganhar tudo.
Depois de duas derrotas, queremos trocar metade do elenco.
Depois de três, alguém precisa ser demitido.
As redes sociais potencializaram isso.
Não existe mais apenas vitória ou derrota.
Existe humilhação.
Vergonha.
Massacre.
Crise.
Pipocada.
Fracasso.
Cada rodada precisa produzir um herói e um culpado.
Porque simplesmente aceitar que um time jogou bem e perdeu parece não ser mais suficiente.
Existe um adversário do outro lado
Talvez também estejamos esquecendo de uma das coisas mais básicas do futebol.
Existe alguém do outro lado tentando ganhar.
O adversário também treina.
Também contrata.
Também tem jogadores de qualidade.
Também possui estratégia.
Também pode fazer um grande trabalho.
Às vezes seu time fez tudo certo e perdeu para alguém que também fez tudo certo.
Às vezes uma temporada inteira é decidida em uma final.
Uma bola na trave.
Um erro individual.
Uma defesa extraordinária.
Um detalhe.
É justamente essa imprevisibilidade que transforma o futebol no esporte que amamos.
Se o melhor trabalho sempre fosse campeão, talvez o futebol nem tivesse tanta graça.
Talvez Abel esteja certo
A fala de Abel não deve servir como escudo contra críticas.
Resultado importa.
Títulos importam.
E um treinador de um clube como o Palmeiras naturalmente será cobrado por eles.
Mas talvez ele esteja certo quando diz que o futebol está doente.
Porque criamos um ambiente em que perder parece automaticamente significar fracassar.
E não deveria ser assim.
Um treinador não vira gênio depois de uma vitória e também não desaprende futebol depois de uma derrota.
Um projeto não se torna excelente simplesmente porque levantou uma taça e também não precisa ser destruído porque terminou em segundo lugar.
Talvez o futebol brasileiro precise aprender a cobrar sem destruir.
Questionar sem necessariamente pedir demissão.
Reconhecer derrotas sem transformar todos os derrotados em incompetentes.
E, principalmente, ter um pouco mais de convicção naquilo que está sendo construído.
Porque somente um termina campeão.
E nem todos os outros fizeram tudo errado.
O resultado continuará sendo importante.
O título continuará sendo o objetivo.
Mas futebol é muito maior do que isso.
Talvez seja exatamente por esquecermos disso que Abel Ferreira tenha dito que o futebol está doente.
E talvez a cura comece quando conseguirmos novamente enxergar mais que o resultado.
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