Ancelotti vai morrer abraçado às suas convicções? O Brasil começa um novo ciclo repetindo velhos erros

O Brasil iniciou o novo ciclo pós-Copa do Mundo com empate diante da Austrália. Ancelotti precisa abandonar suas convicções e encontrar um sistema que favoreça os jogadores da Seleção?

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Felipe Santana

9/25/20266 min read

Ancelotti vai morrer abraçado às suas convicções? O Brasil começa um novo ciclo repetindo velhos erros

O Brasil começou um novo ciclo depois da Copa do Mundo, mas, pelo menos no primeiro jogo, a sensação foi de que pouca coisa mudou.

O empate por 1 a 1 com a Austrália, nesta sexta-feira, não seria necessariamente um resultado para causar desespero. Afinal, trata-se de um amistoso, o ciclo rumo à próxima Copa do Mundo está apenas começando e Carlo Ancelotti terá tempo para trabalhar.

O problema está muito mais no futebol apresentado pela Seleção do que no resultado.

O Brasil teve enormes dificuldades para controlar a partida, criar oportunidades e impor seu jogo. Precisou de um gol de Rayan no último lance para evitar uma derrota diante da Austrália. E isso, no primeiro jogo de um novo ciclo, deveria ao menos servir como um alerta.

Porque a pergunta que fica é inevitável:

Ancelotti vai insistir nas mesmas convicções até o fim ou vai perceber que precisa mudar?

Novo ciclo, velhos problemas

Ancelotti decidiu começar esse novo ciclo mantendo uma estrutura que já havia apresentado problemas anteriormente.

O treinador utilizou novamente o 4-2-4, com dois jogadores no meio e quatro homens mais avançados. A escalação teve Hugo Souza; Matheuzinho, Marquinhos, Vitor Reis e Douglas Santos; Danilo e Bruno Guimarães; Estêvão, Raphinha, Endrick e Vinicius Junior.

No papel, é um time extremamente talentoso.

Na prática, porém, o Brasil voltou a ter um problema que não é novo: os setores não conversam.

O meio-campo fica sobrecarregado. Os atacantes recebem a bola longe demais do gol. Falta alguém para organizar o jogo por dentro. E, quando o adversário fecha os espaços, a Seleção passa a depender excessivamente de jogadas individuais.

Contra a Austrália, isso ficou evidente.

A Seleção teve posse de bola, mas encontrou enorme dificuldade para transformar essa posse em chances claras. A equipe australiana conseguiu competir, pressionar e criar problemas para o Brasil, que terminou precisando de um gol nos acréscimos para sair de campo com o empate.

E esse é justamente o ponto que precisa ser discutido.

Ancelotti é grande demais para não perceber o problema

Não há discussão sobre a capacidade de Carlo Ancelotti.

Ele é um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol e construiu sua carreira justamente pela capacidade de trabalhar com diferentes tipos de jogadores e adaptar suas equipes.

Em diferentes clubes, Ancelotti já utilizou diferentes sistemas, mudou funções, encontrou soluções e montou equipes de maneiras distintas.

Por isso mesmo, é difícil entender por que, na Seleção Brasileira, existe uma insistência tão grande em um modelo que não parece potencializar o elenco.

O treinador precisa adaptar o sistema aos jogadores.

Não adianta simplesmente colocar quatro jogadores ofensivos no ataque e imaginar que a qualidade individual vai resolver tudo.

Futebol não funciona assim.

Vinicius Junior precisa receber em condições para atacar o espaço. Raphinha precisa participar do jogo e ter liberdade para criar. Estêvão precisa encontrar situações de um contra um. Endrick precisa receber bolas em condições de finalizar.

Mas, para tudo isso acontecer, alguém precisa fazer a bola chegar.

E é aí que está um dos maiores problemas do Brasil.

O Brasil não tem um meio-campo para jogar desse jeito

É preciso reconhecer uma realidade que pode incomodar: o Brasil não tem hoje um meio-campo comparável ao de algumas das grandes seleções do mundo em capacidade de controlar e pensar o jogo.

Não temos, neste momento, um Xavi ou um Iniesta. Não temos um Modric. Não temos um Rodri.

Isso não significa que faltem bons jogadores.

Bruno Guimarães é um excelente meio-campista. Mas colocá-lo praticamente sozinho como responsável por conectar defesa e ataque é outra história.

O Brasil precisa encontrar maneiras de fazer seus melhores jogadores participarem mais do jogo.

Se o meio-campo não consegue criar superioridade, talvez seja necessário colocar mais gente por dentro.

Se faltam jogadores capazes de organizar a partida individualmente, talvez o sistema precise criar essa organização coletivamente.

Se o time não consegue controlar o jogo com dois homens no meio, por que insistir?

Essa é uma pergunta que precisa ser feita ao treinador.

O problema também está nos jogadores

Criticar Ancelotti não significa ignorar que alguns jogadores também estão abaixo do que se espera deles com a camisa da Seleção.

E esse talvez seja outro problema do Brasil: alguns jogadores chegam à Seleção vivendo momentos completamente diferentes daqueles que apresentam em seus clubes.

Raphinha é um exemplo perfeito.

O atacante vive um momento espetacular no Barcelona e chegou à Seleção depois de marcar 14 gols nos primeiros sete jogos da temporada europeia.

Mas contra a Austrália, novamente, ele não conseguiu transformar essa fase individual em uma atuação capaz de mudar o jogo.

E isso não pode ser colocado apenas na conta do jogador.

Se um atleta que está entre os principais brasileiros do futebol mundial não consegue render na Seleção, é necessário perguntar por que o sistema não está conseguindo extrair o melhor dele.

O mesmo vale para Vinicius Junior.

Vini continua sendo um jogador decisivo e uma das principais referências técnicas do futebol brasileiro, mas sua participação na Seleção ainda está longe de produzir o impacto que apresenta em determinados momentos pelo Real Madrid.

E quanto mais a equipe depende de jogadas individuais, mais previsível fica.

Ancelotti precisa parar de tentar encaixar o Brasil no seu modelo

Talvez essa seja a principal crítica que precisa ser feita neste momento.

Ancelotti parece estar tentando fazer o Brasil jogar de uma determinada maneira, quando deveria estar procurando a melhor maneira de fazer esse Brasil jogar.

Parece uma diferença pequena.

Não é.

Grandes treinadores conseguem adaptar suas ideias aos jogadores disponíveis.

E Ancelotti já provou isso inúmeras vezes.

Por isso, se o 4-2-4 não funciona, mude.

Se dois jogadores no meio não são suficientes, coloque três.

Se os pontas estão ficando isolados, aproxime-os.

Se Vinicius e Raphinha não conseguem participar do jogo, encontre uma maneira de colocá-los em situações melhores.

Se Endrick está distante da área, aproxime-o.

O treinador tem quatro anos até a próxima Copa do Mundo.

Não existe motivo para tratar o primeiro desenho tático como se fosse uma sentença definitiva.

O Brasil não precisa ser o melhor time do mundo agora

Também é preciso ter calma.

Ninguém está dizendo que o Brasil deveria ser hoje a melhor seleção do mundo.

Não é.

A Argentina, a Espanha, a França e outras seleções possuem trabalhos mais consolidados e jogadores capazes de controlar partidas de maneiras que o Brasil atualmente tem dificuldade de fazer.

Mas existe uma diferença entre não ser a melhor seleção do mundo e não conseguir impor seu jogo contra a Austrália.

É justamente isso que torna o empate preocupante.

O Brasil possui jogadores de enorme qualidade.

Marquinhos tem experiência internacional.

Bruno Guimarães é um jogador de alto nível.

Vinicius Junior é uma estrela mundial.

Raphinha vive um momento extraordinário na Europa.

Estêvão é uma das grandes promessas do futebol brasileiro.

Endrick continua sendo um jogador de enorme potencial.

E ainda existem outros nomes chegando.

O elenco pode não ser perfeito.

Mas também não é um elenco que deveria parecer tão perdido em campo.

Ancelotti precisa entender que convicção não pode virar teimosia

Carlo Ancelotti ganhou o direito de ter convicções.

O que ele não pode fazer é transformar convicção em teimosia.

Esse é o grande desafio do italiano nesse novo ciclo.

Ele não precisa abandonar tudo depois de um empate com a Austrália. Seria exagero.

Mas precisa olhar para o jogo e reconhecer que o modelo utilizado não funcionou.

A Seleção teve dificuldades para criar, sofreu para controlar a partida e só conseguiu evitar a derrota no último lance.

Isso não significa que Ancelotti seja um treinador ruim.

Muito pelo contrário.

É justamente porque ele é um treinador tão experiente que a cobrança precisa ser maior.

Ele sabe mudar.

Ele já mudou inúmeras vezes durante sua carreira.

Agora precisa mostrar que também consegue fazer isso na Seleção Brasileira.

Porque o novo ciclo começou.

E, se o Brasil continuar jogando exatamente como vinha jogando, trocar o ciclo não terá servido para muita coisa.

Ancelotti ainda tem tempo. Tem jogadores. Tem experiência. Tem quatro anos pela frente.

O que não pode ter é medo de abandonar uma ideia que claramente não está funcionando.

Caso contrário, corre o risco de morrer abraçado às próprias convicções.

E, para um treinador que construiu sua carreira justamente encontrando soluções para diferentes elencos, seria uma contradição difícil de explicar.

Será que não é hora de tentar outra coisa?

Ancelotti tem carta branca para mudar. Tem tempo para testar, encontrar soluções e descobrir qual é a melhor maneira de fazer essa Seleção jogar.

Mas, pelo que estamos vendo, ele parece estar tentando impor um sistema que claramente não está funcionando.

E não foi uma ideia testada apenas uma vez.

Ele já utilizou esse modelo quando chegou à Seleção, insistiu nele durante a preparação para a Copa do Mundo e, agora, no início de um novo ciclo, volta a apostar na mesma fórmula.

Até quando?

Será que não é hora de tentar outra coisa?

O futebol brasileiro não está pedindo que Ancelotti abandone todas as suas convicções depois de um jogo. Está pedindo que ele faça aquilo que sempre fez em sua carreira: olhe para os jogadores que tem, identifique suas características e encontre um sistema que os faça jogar melhor.

Porque insistir em uma ideia que não funciona não é convicção.

Em algum momento, vira teimosia.