Clubes que pagam em dia estão financiando quem não paga?
O Cuiabá escancarou uma contradição do futebol brasileiro: clubes que devem milhões continuam contratando, enquanto clubes menores esperam anos para receber.
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Felipe Santana
9/24/20268 min read


Clubes que pagam em dia estão financiando quem não paga?
“No futebol brasileiro de hoje, quem paga em dia financia quem não paga.”
A frase é do Cuiabá e talvez seja uma das melhores sínteses de um problema que o futebol brasileiro insiste em empurrar para depois.
O clube mato-grossense publicou uma nota oficial após a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), da CBF, condenar o Santos a pagar R$ 18.616.377,46 por valores relacionados à negociação do zagueiro Joaquim.
Mas a questão vai muito além do Santos.
O que o Cuiabá colocou na mesa é uma pergunta incômoda: por que um clube que não paga uma negociação continua tendo liberdade para contratar jogadores, aumentar sua folha salarial e participar normalmente do mercado, enquanto o clube que vendeu precisa esperar meses ou até anos para receber aquilo que foi contratado?
E, nesse ponto, é difícil não concordar com o Cuiabá.
O Cuiabá não está pedindo favor
É importante deixar isso claro.
O Cuiabá não está pedindo uma doação, um empréstimo ou um tratamento especial.
Está cobrando dinheiro de uma negociação de jogador.
A negociação que originou a cobrança aconteceu em 2023, quando Joaquim deixou o Cuiabá para defender o Santos. Posteriormente, o jogador foi vendido ao Tigres, do México, em 2024.
Segundo o Cuiabá, a última parcela do acordo original venceu em janeiro de 2025. O clube afirma que ainda tentou negociar, abriu mão de parte relevante do valor e aceitou receber o restante em cinco parcelas.
Mesmo assim, apenas a primeira parcela teria sido paga.
O Cuiabá acionou a CNRD em maio de 2025 e a decisão saiu somente 16 meses depois, condenando o Santos ao pagamento de R$ 18,6 milhões. O Santos ainda pode recorrer.
E foi nesse contexto que o Cuiabá soltou uma das frases mais fortes de sua nota:
“Sentença não paga salário.”
É difícil discordar.
Porque decisão judicial ou administrativa favorável não coloca dinheiro automaticamente no caixa.
E quem está esperando receber continua tendo contas para pagar.
O problema é que o devedor continua vivendo normalmente
Aqui está o ponto mais crítico.
Quando uma pessoa ou empresa deixa de pagar uma dívida, normalmente enfrenta consequências financeiras.
No futebol, porém, existe uma situação curiosa.
Um clube pode deixar de pagar uma negociação milionária, ser acionado na CNRD, passar meses ou anos discutindo a dívida e, durante esse período, continuar contratando jogadores.
Ou seja:
o clube que não pagou continua gastando, enquanto o clube que deveria receber é obrigado a esperar.
Isso não é apenas injusto do ponto de vista esportivo.
É uma distorção econômica.
Imagine o absurdo da situação.
Um clube vende um jogador por R$ 20 milhões, aceita receber parcelado e utiliza aquele dinheiro futuro para planejar sua temporada.
O comprador não paga.
O vendedor precisa entrar na CNRD.
O processo demora.
A decisão sai.
O devedor recorre ou negocia novamente.
Enquanto isso, o mesmo clube que não pagou pode anunciar outro jogador por milhões de reais.
Como isso pode fazer sentido?
Se existe dinheiro para contratar, deveria existir dinheiro para cumprir os compromissos assumidos anteriormente.
E se não existe dinheiro para pagar as dívidas, talvez não devesse existir liberdade para continuar aumentando a dívida.
E se o credor for um clube pequeno?
É aqui que o caso do Cuiabá fica ainda mais grave.
O Cuiabá não possui o poder financeiro dos clubes mais ricos do país.
O clube chegou à Série A, disputou competições internacionais e conseguiu se estabelecer durante algumas temporadas na elite, mas voltou para a Série B.
Para um clube desse tamanho, a venda de jogadores não é apenas uma oportunidade de negócio.
É parte do modelo de sobrevivência.
Quando o Cuiabá vende um jogador e aceita receber em parcelas, ele está planejando seu futuro com base naquele dinheiro.
Se o comprador simplesmente não paga, o problema não fica com o comprador.
O Cuiabá não tem patrocínios astronômicos para se manter, é depende dessas receitas
O problema é transferido para o Cuiabá.
O clube continua tendo que pagar funcionários, jogadores, fornecedores, viagens, estrutura, categorias de base, impostos e todas as outras despesas de uma temporada.
Mas o dinheiro que deveria entrar não entra.
O Cuiabá afirma que possui mais de R$ 40 milhões em créditos contra clubes brasileiros.
Quarenta milhões de reais.
Para um clube de menor orçamento, não estamos falando de dinheiro que pode simplesmente ser ignorado.
Estamos falando de recursos que poderiam fazer diferença na montagem de um elenco, na manutenção da estrutura e no planejamento de uma temporada inteira.
O mais revoltante é quando o clube devedor continua contratando
Essa é a parte que precisa ser discutida com mais seriedade.
Não é razoável que um clube tenha uma dívida milionária com outro clube e, ao mesmo tempo, apareça no mercado anunciando novas contratações.
O futebol brasileiro normalizou demais a ideia de que dívida é apenas um problema contábil.
Não é.
Dívida é dinheiro que alguém deixou de receber.
Quando o Santos não paga o Cuiabá, o dinheiro não desaparece.
Ele deixa de entrar no caixa do Cuiabá.
Quando outro clube deixa de pagar uma negociação, acontece exatamente a mesma coisa.
E quando vários clubes fazem isso ao mesmo tempo, o problema começa a contaminar todo o mercado.
O clube maior consegue continuar funcionando porque possui receitas de televisão, patrocínio, torcida, bilheteria e outras fontes de receita.
O clube menor, muitas vezes, depende justamente da venda de jogadores para gerar caixa.
É uma relação completamente desigual.
E não adianta dizer que todo mundo deve
O Santos afirmou que também possui aproximadamente R$ 170 milhões a receber de outros clubes.
Esse argumento é relevante para mostrar que o problema é estrutural.
Mas ele não deveria servir como justificativa para deixar de pagar.
“Eu também tenho gente que não me paga” não transforma uma dívida em algo aceitável.
Se o Santos tem R$ 170 milhões para receber, deveria cobrar esses valores.
Se o Cuiabá tem mais de R$ 40 milhões para receber, deveria cobrar também.
Se Corinthians, Grêmio, Sport ou qualquer outro clube possui valores em aberto, precisam ser cobrados.
A solução não pode ser transformar o futebol brasileiro em uma corrente de inadimplência em que ninguém paga ninguém.
Porque nesse cenário, quem mais sofre é justamente quem possui menos poder financeiro.
O futebol brasileiro criou uma cultura perigosa
O problema é que a inadimplência entre clubes parece ter sido incorporada ao funcionamento normal do futebol.
Contrata.
Parcela.
Atrasa.
Renegocia.
Recorre.
Espera.
Paga quando consegue.
E segue o jogo.
Não deveria ser assim.
Uma negociação de jogador é um contrato.
Se um clube não possui capacidade financeira para pagar as parcelas de uma contratação, deveria pensar duas vezes antes de assumir aquele compromisso.
O futebol não pode funcionar na lógica de:
“Depois a gente vê como paga.”
Porque o “depois” de um clube é o caixa quebrado de outro.
O mecanismo de punição precisa ser muito mais eficiente
Hoje existem mecanismos como o transfer ban, que impedem clubes inadimplentes de registrar novos jogadores em determinadas situações.
O Mais que Resultado já discutiu esse problema no artigo “Transfer ban: a punição que expõe a má gestão no futebol brasileiro”.
Mas o problema é justamente o tempo.
Se o clube deve hoje e a punição só chega muito tempo depois, o dano ao credor já aconteceu.
O Cuiabá pode ter passado mais de um ano esperando por uma decisão.
Nesse período, o dinheiro não estava no caixa.
E salário não espera CNRD.
Fornecedor não espera CNRD.
Imposto não espera CNRD.
Viagem não espera CNRD.
A temporada não espera CNRD.
Por que o credor deveria esperar?
É por isso que o futebol brasileiro precisa discutir punições mais rápidas e progressivas para quem não paga.
Não estamos falando necessariamente de punir um clube no primeiro dia de atraso, mas em um período bem menor do que é hoje.
Depois de reconhecida a dívida e vencidos os prazos para pagamento, as consequências precisam ser reais.
Bloqueio de receitas.
Restrição de registros.
Transfer ban.
Multas.
E, em casos de inadimplência persistente, o debate sobre sanções esportivas mais graves precisa existir.
Porque se a única consequência de não pagar for esperar uma decisão que pode demorar anos, o sistema está premiando quem empurra a dívida para frente.
Não pode ser mais vantajoso não pagar
Essa deveria ser a regra número um.
Não pode ser mais barato ficar inadimplente do que cumprir o contrato.
Se um clube paga em dia, ele precisa arcar imediatamente com o custo da contratação.
Se outro não paga, consegue segurar o dinheiro no caixa durante meses ou anos.
Onde está o incentivo para cumprir?
É justamente isso que precisa mudar.
Um clube que honra seus compromissos não pode ser colocado em desvantagem em relação ao clube que simplesmente posterga os pagamentos.
Caso contrário, a mensagem passada pelo sistema é péssima:
quem paga corretamente fica sem dinheiro; quem não paga ganha tempo.
E isso é exatamente o contrário do que deveria acontecer.
Enquanto o Cuiabá luta para se manter de pé, os grandes continuam no mercado
O caso do Santos torna essa discussão ainda mais interessante.
O Santos passou por uma situação esportiva complicada no campeonato estava brigando para não cair e, na janela de transferências, realizou investimentos para melhorar seu elenco.
Inclusive, nós já discutimos aqui no Mais que Resultado como os reforços contratados pelo Santos mudaram o cenário da equipe, que antes brigava contra o rebaixamento e passou a mirar uma vaga na Libertadores.
E isso gera uma pergunta inevitável:
as dívidas antigas estão sendo pagas antes das novas contratações?
Não sabemos todos os detalhes financeiros de cada operação e não cabe afirmar que uma contratação específica foi feita com dinheiro que deveria ter sido destinado ao Cuiabá.
Mas o debate é legítimo.
Porque, enquanto um clube da Série A consegue movimentar o mercado e buscar reforços, o Cuiabá, que possui milhões de reais para receber de diferentes clubes, está na Série B tentando manter sua operação funcionando.
Essa diferença mostra o tamanho do problema.
O Cuiabá está errado por cobrar?
Muito pelo contrário.
Se existe uma crítica que deveria ser feita ao Cuiabá, não é por cobrar.
É justamente o contrário.
Mais clubes deveriam fazer isso.
Clubes pequenos precisam parar de aceitar que receber depois seja normal.
Precisam cobrar.
Precisam pressionar.
Precisam utilizar os mecanismos disponíveis.
Porque, se não fizerem isso, o risco é que o futebol brasileiro se torne cada vez mais concentrado.
Os clubes grandes compram os jogadores.
Parcelam.
Alguns atrasam.
Os clubes pequenos ficam esperando.
E, com menos dinheiro em caixa, têm cada vez mais dificuldade para competir.
Depois esses mesmos clubes são questionados por não conseguirem montar elencos competitivos.
É uma contradição enorme.
Clubes que pagam em dia estão financiando quem não paga?
Em muitos casos, essa é exatamente a sensação.
E talvez o futebol brasileiro precise parar de tratar isso como algo normal.
O clube que compra um jogador assume uma obrigação.
O clube que vende assume o risco de receber parcelado.
Se o comprador não paga, quem deveria ser penalizado é quem descumpriu o contrato — e não quem cumpriu sua parte.
O Cuiabá vendeu.
O Cuiabá entregou o jogador.
O Cuiabá aceitou uma forma de pagamento.
O Cuiabá esperou.
E agora precisa recorrer à CNRD para tentar receber.
Enquanto isso, o clube devedor continua disputando campeonatos e participando do mercado.
Isso precisa mudar.
Não se trata de perseguir o Santos ou qualquer outro clube.
Trata-se de estabelecer uma regra simples para todo o futebol brasileiro:
se você não paga o que deve, não pode continuar se comportando financeiramente como se estivesse tudo em dia.
Porque contratos precisam valer.
Parcelas precisam ser pagas.
E clubes que cumprem suas obrigações não podem continuar sendo os bancos dos clubes que não cumprem.
No fim, a frase do Cuiabá resume perfeitamente o problema:
“Quem paga em dia financia quem não paga.”
E talvez tenha chegado a hora de o futebol brasileiro parar de achar isso normal.
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