Manchester City e as 115 acusações: se o Everton perdeu 6 pontos, o que pode acontecer com o City?

Manchester City foi considerado culpado em acusações de violações financeiras pela Premier League. Entenda o caso, compare com a punição do Everton e veja quais sanções podem ser aplicadas ao clube.

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Felipe Santana

9/30/20266 min read

Manchester City e as 115 acusações: o que pode acontecer agora?

Durante anos, o caso Manchester City foi tratado como uma disputa jurídica que parecia não ter fim. As acusações estavam sobre a mesa, o clube negava qualquer irregularidade e o processo avançava lentamente.

Agora, porém, a situação mudou.

Uma comissão independente considerou o Manchester City culpado das acusações relacionadas às violações financeiras graves da Premier League durante nove temporadas, entre 2009/10 e 2017/18. A comissão também considerou comprovadas três das quatro acusações relacionadas à falta de cooperação do clube com a investigação.

A punição ainda não foi definida, e o Manchester City pretende recorrer da decisão.

E é justamente neste momento que surge uma comparação inevitável com outro clube inglês: o Everton.

O Everton recebeu seis pontos de punição depois de recorrer de uma decisão inicial de dez pontos por uma violação das regras de rentabilidade e sustentabilidade da Premier League. A diferença fundamental é que o Everton havia admitido a violação.

Então fica a pergunta:

Se uma violação financeira resultou em seis pontos para o Everton, o que pode acontecer com o Manchester City diante da dimensão das acusações consideradas comprovadas?

O que são as 115 acusações contra o Manchester City?

É importante esclarecer que não se trata simplesmente de 115 acusações de "gastar demais".

O processo envolve diferentes tipos de supostas violações das regras financeiras da Premier League, incluindo informações financeiras, contratos comerciais, pagamentos relacionados a jogadores e treinadores e a cooperação do clube com a investigação.

Segundo a decisão da comissão independente, entre 2009/10 e 2017/18 o Manchester City utilizou contratos que a comissão classificou como "sham contracts", ou seja, acordos que não representariam corretamente o que havia sido efetivamente combinado entre as partes.

A Premier League afirma que esses mecanismos teriam servido para aumentar artificialmente as receitas do clube e reduzir seus custos.

A comissão também concluiu que o clube apresentou informações financeiras incorretas e que houve violações significativas dos limites financeiros da Premier League e da UEFA durante o período analisado.

Segundo análises publicadas após a decisão, a investigação identificou centenas de milhões de libras em receitas de patrocínio cuja origem e natureza foram questionadas pela comissão.

É justamente essa dimensão que faz o caso ser diferente de uma simples punição por excesso de gastos.

Everton: seis pontos por uma violação admitida

O caso do Everton ajuda a entender como a Premier League vem tratando as violações financeiras.

Em novembro de 2023, uma comissão independente aplicou ao clube uma punição de dez pontos por violação das Profitability and Sustainability Rules, as chamadas PSR.

O Everton recorreu e, em fevereiro de 2024, a punição foi reduzida para seis pontos.

Um detalhe fundamental é que o próprio Everton havia admitido a existência da violação e contestava principalmente a punição aplicada.

O clube ainda recebeu posteriormente uma punição de dois pontos por outra violação relacionada ao período até a temporada 2022/23.

A comparação, portanto, não significa que as punições devam ser calculadas simplesmente pelo número de acusações.

Mas ela levanta uma questão legítima:

qual será a resposta da Premier League diante de um caso considerado muito mais amplo?

O Manchester City pode perder pontos?

Sim.

A dedução de pontos está entre as possíveis sanções aplicáveis em casos dessa natureza.

O que ainda não sabemos é o tamanho de uma eventual punição.

Seria incorreto simplesmente multiplicar os seis pontos aplicados ao Everton pelo número de acusações do Manchester City. As regras não funcionam dessa maneira.

A comissão responsável pela punição deverá considerar a natureza das violações, sua duração e outros fatores relevantes.

Uma dedução significativa, entretanto, poderia ter um impacto enorme na classificação da Premier League.

Dependendo da quantidade de pontos e do momento em que a punição fosse aplicada, o City poderia deixar de disputar as primeiras posições e até entrar na luta contra o rebaixamento.

O Manchester City pode ser rebaixado?

Essa é uma possibilidade.

As sanções previstas para violações das regras da Premier League podem ir além de multas e deduções de pontos, chegando a medidas extremamente severas, incluindo a expulsão da competição.

Mas é importante separar possibilidade de decisão.

O Manchester City não foi rebaixado.

A comissão decidiu sobre a responsabilidade pelas violações, enquanto a punição ainda será definida. Além disso, o clube pretende recorrer.

Portanto, afirmar que o City será rebaixado seria antecipar uma decisão que ainda não existe.

O que pode ser dito é que, pela dimensão do caso, uma punição esportiva severa não pode ser descartada.

E os títulos conquistados pelo Manchester City?

Essa talvez seja uma das questões mais delicadas de todo o processo.

O período investigado inclui temporadas nas quais o Manchester City conquistou títulos importantes.

Isso naturalmente levanta outra pergunta:

Se as violações financeiras foram consideradas comprovadas, os títulos conquistados durante esse período poderiam ser afetados?

Até o momento, não existe uma decisão determinando a retirada de títulos.

Uma eventual alteração retroativa dos resultados seria juridicamente e esportivamente complexa. Seria necessário determinar quais competições poderiam ser afetadas e quais regras permitiriam modificar resultados históricos.

Também existiriam consequências para outros clubes, que poderiam alegar prejuízos financeiros relacionados à classificação, premiações e participação em competições europeias.

Por isso, a perda de títulos deve ser tratada como uma possibilidade em discussão, e não como uma consequência já determinada.

O caso pode significar o fim do Manchester City?

É uma hipótese que chama atenção, mas precisa ser colocada em perspectiva.

Uma expulsão da Premier League não significaria automaticamente o fim do Manchester City como instituição.

O clube continuaria existindo, mas poderia enfrentar uma crise esportiva e financeira de enormes proporções.

Uma combinação de rebaixamento ou expulsão, perda de receitas televisivas, redução de premiações, possíveis ações de outros clubes e dificuldade para manter jogadores poderia mudar completamente o cenário construído pelo Manchester City nas últimas duas décadas.

Por isso, talvez seja mais correto falar no possível fim de uma era, e não no fim do clube.

O Manchester City construiu uma das equipes mais dominantes do futebol inglês justamente durante o período que está no centro da investigação.

Uma punição extremamente severa poderia alterar profundamente essa realidade.

O recurso será o próximo capítulo

O Manchester City rejeita as conclusões da comissão e afirma que continua convencido de sua inocência.

O clube pretende recorrer da decisão, o que significa que a disputa ainda pode se prolongar.

E existe um precedente que torna essa questão ainda mais interessante.

Em 2020, a UEFA havia punido o Manchester City com uma suspensão de dois anos das competições europeias por supostas violações relacionadas às regras financeiras. O Tribunal Arbitral do Esporte posteriormente anulou a suspensão, embora tenha mantido uma multa por falta de cooperação.

O processo atual da Premier League, entretanto, é independente daquele caso.

Portanto, o resultado do recurso será fundamental para determinar o tamanho definitivo das consequências para o clube.

O que realmente está em jogo?

Mais do que pontos.

Mais do que uma multa.

O que está em jogo é a credibilidade das regras financeiras da Premier League.

Nos últimos anos, Everton e Nottingham Forest sofreram punições esportivas relacionadas às regras financeiras. Agora, a liga precisa lidar com um caso de dimensão muito maior.

E existe um problema que vai além do Manchester City.

Durante anos, os clubes foram obrigados a respeitar limites financeiros para participar da competição. Se um clube for considerado culpado de violações graves e receber uma punição que os demais considerem desproporcionalmente pequena, inevitavelmente surgirão questionamentos sobre a eficácia dessas regras.

Por outro lado, uma punição extremamente severa também precisará resistir aos recursos e aos questionamentos jurídicos do próprio Manchester City.

É justamente por isso que o próximo capítulo será tão importante.

Everton x Manchester City: dois casos, uma mesma pergunta

O Everton recebeu seis pontos depois de admitir uma violação das regras de sustentabilidade financeira e recorrer da punição inicial de dez pontos.

O Manchester City enfrenta um processo muito mais amplo, envolvendo nove temporadas e diferentes categorias de acusações. A comissão independente considerou comprovadas as acusações relacionadas às violações financeiras graves durante todo o período analisado.

Isso não significa que o City necessariamente receberá uma punição proporcionalmente maior.

Mas levanta uma pergunta que a Premier League terá de responder:

se seis pontos foram considerados uma punição adequada para o Everton, qual será a medida considerada proporcional para o Manchester City?

A resposta poderá definir muito mais do que o futuro de um clube.

Poderá definir até onde vão, na prática, as regras financeiras do futebol inglês.

Porque, no fim das contas, não basta existir uma regra.

É preciso que os clubes acreditem que ela realmente vale para todos.