O Corinthians tem tudo para dar errado. Mas, de algum jeito, dá certo

Crise política, protestos, negociação conturbada e expulsão em campo. O Corinthians tinha tudo para dar errado, mas encontrou no caos mais uma classificação na Libertadores.

ANÁLISE TÁTICA

Felipe Santana

8/21/20265 min read

O Corinthians tem tudo para dar errado. Mas, de algum jeito, dá certo

Talvez seja difícil encontrar um clube que consiga transformar o caos em combustível como o Corinthians.

Às vezes, parece que tudo precisa dar errado primeiro.

A diretoria entra em crise. A torcida protesta. Uma negociação vira novela. O principal jogador fica perto de sair, permanece depois de uma enorme reviravolta e, quando finalmente chega o jogo mais importante, o time ainda consegue ter um jogador expulso.

Era o cenário perfeito para uma eliminação.

Mas era o Corinthians.

E, de algum jeito, deu certo outra vez.

Uma classificação que começou muito antes do jogo

O Corinthians entrou em campo contra o Rosario Central carregando muito mais do que o empate por 0 a 0 conquistado na Argentina.

O ambiente fora das quatro linhas estava longe de ser tranquilo.

A renovação de Memphis Depay havia se transformado em uma novela.

O clube decidiu não renovar. A decisão provocou enorme repercussão, aumentou a pressão sobre a diretoria e foi seguida por uma reviravolta que terminou com um novo contrato até 2028.

No meio disso tudo, torcedores protestaram contra a direção e chegaram a se manifestar em frente ao Ministério Público pedindo intervenção judicial no clube.

Ou seja: enquanto outros clubes gostariam de passar a semana de uma decisão de Libertadores falando sobre escalação, estratégia e futebol, o Corinthians discutia política, dívida, protesto, contrato e crise.

Parecia tudo, menos preparação para uma noite decisiva.

Dentro de campo, as coisas também não começaram bem

Quando a bola rolou, o Corinthians também não conseguiu encontrar tranquilidade.

O time não fazia uma boa partida.

O jogo era truncado, picado, cheio de interrupções e com poucas sequências de futebol. O Corinthians tinha dificuldades para criar e não conseguia transformar a força da Neo Química Arena em pressão sobre o Rosario Central.

O tempo passava e o 0 a 0 permanecia.

Até que a situação ficou ainda mais complicada.

Raniele foi expulso aos 12 minutos do segundo tempo.

O jogo estava empatado.

O confronto também.

E o Corinthians agora precisava buscar a classificação com dez jogadores.

Parecia o momento em que tudo aquilo que já estava difícil finalmente ficaria ainda pior.

Só que aconteceu exatamente o contrário.

Com dez jogadores, o Corinthians melhorou

Por incrível que pareça, a expulsão mudou o jogo a favor do Corinthians.

Não porque jogar com dez seja uma vantagem, obviamente, mas porque a resposta dada pelo time — e principalmente por Fernando Diniz — mudou a dinâmica da partida.

Quando um jogador de características mais defensivas é expulso em uma eliminatória como aquela, existe uma reação quase automática no futebol.

Recompor o setor.

Tirar um atacante.

Colocar outro jogador mais defensivo.

Fechar os espaços e tentar sobreviver.

Seria uma decisão perfeitamente compreensível. Afinal, um gol do Rosario Central naquele momento poderia colocar toda a classificação em risco.

Diniz decidiu não seguir esse caminho.

Em vez de simplesmente reorganizar o sistema defensivo e aceitar que o Corinthians passaria o restante da partida tentando resistir, o treinador resolveu continuar buscando o resultado.

E colocou Memphis Depay.

A decisão tinha risco.

Mas também dizia muito sobre o que Diniz queria daquele Corinthians.

Mesmo com dez jogadores, o time não iria simplesmente abandonar a ideia de atacar.

E funcionou.

Curiosamente, o Corinthians que encontrava dificuldades quando tinha 11 jogadores passou a jogar melhor quando ficou com dez.

O time encontrou mais espaços, começou a chegar com mais perigo e mostrou uma agressividade que ainda não havia conseguido apresentar na partida.

Foi uma decisão importante de Diniz.

Porque quando o jogo ofereceu ao Corinthians uma justificativa perfeita para recuar, o treinador escolheu atacar.

E foi justamente a partir dessa mudança que a noite começou a ganhar um roteiro ainda mais improvável.

Memphis entra. Bidon aparece. E o roteiro fica ainda mais corintiano

E tinha que ser justamente Memphis.

O jogador que poucos dias antes parecia estar deixando o clube.

O protagonista de uma negociação que expôs divisões políticas, provocou pressão da torcida e colocou a diretoria no centro de uma enorme discussão.

Agora estava novamente em campo pelo Corinthians em uma decisão de Libertadores.

E pouco depois de entrar, participou da jogada que mudaria a eliminatória.

Breno Bidon sofreu a falta.

Memphis rapidamente colocou a bola na área.

E Bidon, garoto formado no Corinthians, apareceu para marcar o gol da classificação.

Talvez nem um roteirista corintiano exageradamente otimista escrevesse dessa maneira.

O Corinthians estava com um jogador a menos.

Seu principal astro havia acabado de voltar depois de uma negociação caótica.

E um garoto formado no clube marcou o gol que colocou o time nas quartas de final da Libertadores.

Não significa que esteja tudo bem

E talvez esse seja o ponto mais importante.

A classificação não apaga os problemas do Corinthians.

Não resolve suas dificuldades financeiras.

Não encerra as disputas políticas.

Não transforma decisões administrativas questionáveis em boas decisões.

Também não significa que jogar com um jogador a menos seja alguma estratégia secreta.

Muito menos que viver permanentemente no caos seja uma virtude.

O Corinthians não precisa da desorganização para ser Corinthians.

Romantizar todos os problemas porque o time venceu seria ignorar questões que continuam existindo e que podem cobrar um preço muito alto no futuro.

Mas existe uma diferença entre dizer que o caos é bom e reconhecer uma característica impressionante desse clube:

o Corinthians parece ter uma capacidade incomum de continuar vivo dentro dele.

Talvez isso explique um pouco do que é ser Corinthians

Existem clubes que parecem funcionar melhor quando tudo está organizado.

Planejamento, estabilidade, tranquilidade e controle.

Obviamente, esse também deveria ser o objetivo do Corinthians.

Mas sua história criou uma relação diferente com a adversidade.

A torcida parece crescer quando o cenário piora.

O estádio fica mais pesado quando o jogo fica mais difícil.

E jogadores que talvez não tenham o melhor futebol tecnicamente parecem encontrar forças quando a partida vira uma batalha.

Não é algo que apareça facilmente em uma estatística.

É identidade.

E contra o Rosario Central isso apareceu novamente.

O Corinthians poderia ter feito uma classificação tranquila.

Mas tranquilidade provavelmente seria simples demais.

Precisou ter protesto.

Precisou ter crise política.

Precisou ter novela com Memphis.

Precisou ter expulsão.

Precisou sofrer.

E, depois de tudo isso, precisou ganhar.

O Corinthians tem tudo para dar errado

O mais curioso é que, olhando racionalmente, existem inúmeros motivos para desconfiar do Corinthians.

O clube vive dificuldades financeiras.

A política interna frequentemente interfere no futebol.

Decisões importantes se transformam em crises públicas.

E até dentro de campo o time consegue criar dificuldades para si mesmo.

Não existe garantia de que essa capacidade de sobreviver será suficiente contra adversários mais fortes.

O Estudiantes será o próximo desafio.

Talvez, em algum momento, o Corinthians precise aprender que não pode depender eternamente do caos para encontrar soluções.

Mas essa discussão fica para depois.

Porque algumas noites não precisam ser explicadas apenas pela lógica.

Naquela noite, o Corinthians teve quase tudo para dar errado.

Jogou com dez.

Sofreu.

Foi pressionado.

Quase caiu.

E se classificou.

Talvez seja justamente essa a contradição que ajuda a explicar esse clube.

O Corinthians tem tudo para dar errado.

Mas, de algum jeito que ninguém consegue explicar completamente, continua dando certo.

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