O futebol brasileiro está perdendo a graça? Confusão, reclamações e muitas faltas colocam o espetáculo em risco
O excesso de reclamações, faltas e interrupções está prejudicando o futebol brasileiro? Analisamos o exemplo de Corinthians x Internacional e refletimos sobre como jogadores, árbitros e dirigentes podem estar afastando o torcedor do espetáculo.
BASTIDORES DO FUTEBOL
Felipe Santana
8/7/20269 min read


O futebol brasileiro está perdendo a graça?
Confusão, reclamações, faltas e interrupções estão ocupando espaço demais no futebol brasileiro? Os números sobre o tempo de bola rolando mostram que existe um problema que vai além da simples sensação do torcedor.
O futebol brasileiro continua tendo grandes jogadores, estádios cheios e torcidas apaixonadas.
Talento não falta.
Competição também não.
Mas existe uma sensação cada vez mais difícil de ignorar para quem acompanha o Campeonato Brasileiro: em muitos momentos, o jogo parece estar ficando em segundo plano.
Não necessariamente porque os jogadores não sabem jogar.
Mas porque a bola passa tempo demais parada.
Uma falta.
Uma reclamação.
Um jogador caído.
Uma discussão com o árbitro.
Uma revisão do VAR.
Uma substituição demorada.
Mais uma paralisação.
Quando a partida finalmente começa a ganhar ritmo, outra interrupção aparece.
E surge uma pergunta que pode parecer provocativa, mas merece ser discutida:
O futebol brasileiro está perdendo a graça?
Não é apenas uma impressão do torcedor
Durante muito tempo, dizer que o futebol brasileiro tinha partidas excessivamente paradas poderia ser tratado apenas como opinião.
Hoje, temos números para discutir o assunto.
Segundo levantamento da CBF, elaborado com dados da Opta Stats Perform, o Campeonato Brasileiro tinha, antes da pausa para a Copa do Mundo de 2026, uma média de 52 minutos e 54 segundos de bola rolando por partida.
O número estava abaixo da meta de 60 minutos estabelecida pela FIFA.
Mais do que medir o problema, o estudo identificou onde parte desse tempo poderia ser recuperada.
Segundo a CBF, aproximadamente 6 minutos e 22 segundos por partida poderiam ser recuperados com mudanças relacionadas a faltas, reposições de bola, atendimentos médicos e checagens do VAR e do impedimento semiautomático.
Isso muda a discussão.
Não estamos mais falando apenas de uma impressão.
Existe um problema mensurável de tempo de bola rolando.
O que acontece quando a bola para demais?
Quem liga a televisão para assistir a uma partida espera ver futebol.
Dribles.
Passes.
Finalizações.
Grandes defesas.
Contra-ataques.
Gols.
Mas uma parte importante da experiência também depende da continuidade.
Quando a partida é interrompida constantemente, o ritmo desaparece.
Uma equipe começa a construir uma jogada e sofre uma falta.
O árbitro marca.
Os jogadores reclamam.
O cartão é pedido.
O jogador demora para cobrar.
A defesa se posiciona.
A cobrança acontece.
Poucos segundos depois, outra falta.
Não existe necessariamente um grande erro em cada uma dessas situações.
O problema é o acúmulo.
Uma interrupção isolada não estraga uma partida.
Dezenas delas podem mudar completamente sua dinâmica.
Reclamar virou parte do jogo?
Esse talvez seja um problema ainda mais difícil de medir.
O jogador sofre uma falta e imediatamente procura o árbitro.
Um adversário comete uma infração e vários jogadores aparecem para pedir cartão.
Uma decisão é tomada e o banco de reservas protesta.
Um lance termina e a discussão continua.
Reclamar faz parte do futebol.
Sempre fez.
E não há nada de errado em questionar uma decisão.
O problema começa quando reclamar deixa de ser uma reação ocasional e passa a fazer parte da dinâmica normal da partida.
Nesse cenário, o jogador não está apenas disputando a bola.
Também está tentando influenciar a próxima decisão do árbitro.
E quando isso acontece de ambos os lados, o jogo ganha uma disputa paralela:
time contra time e jogadores contra arbitragem.
Corinthians x Internacional mostrou o problema
Os confrontos entre Corinthians e Internacional pelas oitavas de final da Copa do Brasil foram um bom exemplo para essa discussão.
Em alguns momentos, as reclamações passaram a ocupar espaço significativo dentro da partida.
Um lance chamou especialmente a atenção.
Durante uma jogada do Internacional, a bola tocou na mão de um jogador colorado antes de seguir para a área. Matheuzinho imediatamente levantou os braços pedindo a marcação da infração.
A jogada continuou.
Na sequência, a bola também tocou em seu braço dentro da área.
Independentemente da interpretação correta do lance, o episódio ilustra um comportamento que se tornou comum:
antes mesmo de a jogada terminar, o jogador já está procurando o árbitro.
Esse comportamento não pertence a um único clube.
Também não é possível dizer que todo jogador que reclama está tentando tirar vantagem.
Mas existe uma questão legítima:
Será que reclamar se tornou um reflexo automático?
A arbitragem também tem responsabilidade
Seria injusto transformar o problema em uma crítica apenas aos jogadores.
A arbitragem brasileira também precisa evoluir.
Erros acontecem.
Critérios podem variar.
Algumas decisões realmente são difíceis de compreender.
E o próprio futebol brasileiro reconheceu que havia espaço para melhorar.
Foi justamente por isso que a CBF adotou novas regras em 2026 com o objetivo de aumentar o tempo de bola rolando.
Entre as mudanças estão limites para cobranças de laterais e tiros de meta, redução do tempo de saída dos jogadores substituídos, permanência de um minuto fora do campo após determinados atendimentos e a regra de que apenas o capitão deve dialogar com o árbitro em determinadas situações.
Ou seja:
o problema não está apenas na percepção do torcedor. A própria organização do futebol brasileiro identificou a necessidade de tornar as partidas mais fluidas.
As novas regras já produziram resultado
E aqui existe uma informação que torna a discussão ainda mais interessante.
Antes da pausa para a Copa do Mundo, a média de bola rolando na Série A era de:
52 minutos e 54 segundos.
Depois da implementação das novas regras, nas nove primeiras partidas analisadas pela CBF, a média subiu para:
55 minutos e 29 segundos.
Foram aproximadamente 2 minutos e 35 segundos a mais de bola rolando por partida.
É importante fazer uma ressalva:
A própria CBF considera prematuro tratar esse primeiro fim de semana como resultado definitivo. Ainda era necessário observar uma amostra maior de partidas para avaliar o efeito das mudanças.
Mas existe um fato que não pode ser ignorado:
o futebol brasileiro começou a testar soluções e os primeiros números mostraram aumento do tempo de jogo.
E o VAR?
O VAR deveria ajudar a diminuir os erros.
E ajudou em determinados tipos de lance.
Mas também criou uma nova categoria de reclamação.
Antes, a pergunta era:
“Por que o árbitro não viu?”
Depois do VAR, passou a ser:
“Por que o VAR chamou?”
“Por que não chamou?”
“Por que demorou?”
“Qual foi o critério?”
A tecnologia não eliminou a discussão.
Ela mudou a discussão.
Isso não significa que o VAR tenha fracassado.
Significa que uma tecnologia pode resolver um problema e, ao mesmo tempo, criar novas questões sobre sua utilização.
O mesmo vale para o impedimento semiautomático.
O futebol brasileiro também está tentando acelerar as decisões
Em 2026, o Brasileirão passou a utilizar o impedimento semiautomático.
Na primeira rodada de utilização, o sistema foi acionado cinco vezes e apresentou tempo médio de checagem de 47 segundos. O menor tempo registrado foi de 32 segundos e o maior, de 64 segundos.
O sistema utiliza entre 28 e 32 câmeras dedicadas em cada estádio, com imagens em 4K e 100 quadros por segundo. A tecnologia identifica automaticamente o momento do contato com a bola e os jogadores envolvidos no lance, enquanto a equipe do VAR valida o resultado.
É uma mudança significativa.
Mas novamente aparece uma lição importante:
tecnologia não significa ausência de discussão.
Ela significa uma tentativa de tornar determinada decisão mais rápida, objetiva e confiável.
O problema não é reclamar
É importante fazer uma distinção.
Reclamar não é necessariamente ruim.
Se um árbitro erra, o erro precisa ser discutido.
Se uma regra é mal aplicada, precisa ser questionada.
Se uma tecnologia apresenta problemas, precisa ser aperfeiçoada.
Sem cobrança, provavelmente muitas mudanças demorariam ainda mais para acontecer.
O problema é quando a reclamação passa a ser mais importante do que o próprio jogo.
Quando cada contato vira uma discussão.
Quando cada decisão precisa ser contestada.
Quando jogadores cercam o árbitro.
Quando dirigentes fazem pressão antes de partidas decisivas.
Quando a imprensa transforma cada reclamação em uma nova polêmica.
Nesse momento, o futebol começa a perder espaço para aquilo que acontece ao redor dele.
Os clubes também fazem parte dessa cultura
A pressão não começa somente dentro de campo.
Dirigentes também participam desse ambiente.
Notas oficiais.
Entrevistas.
Declarações antes de partidas.
Reclamações sobre árbitros.
Tudo isso pode ser legítimo.
Um clube precisa ter liberdade para questionar uma decisão que considera injusta.
Mas existe uma diferença entre:
cobrar melhorias na arbitragem
e
criar pressão sobre o árbitro que vai comandar a próxima partida.
Essa discussão merece atenção porque o ambiente criado fora do campo também influencia o que acontece dentro dele.
E esse é justamente um dos temas que já discutimos aqui no Mais que Resultado:
as notas oficiais dos clubes realmente ajudam a melhorar a arbitragem ou também podem ser utilizadas como instrumento de pressão?
O torcedor também faz parte desse ciclo
É fácil colocar toda a responsabilidade nos jogadores, árbitros ou dirigentes.
Mas existe um quarto personagem:
o torcedor.
As redes sociais transformaram cada decisão em uma disputa imediata.
Um pênalti vira discussão.
Um cartão vira discussão.
Um impedimento vira discussão.
Uma fala do árbitro vira discussão.
E quanto maior a polêmica, maior a quantidade de conteúdo produzida sobre ela.
Existe, portanto, um ciclo:
polêmica → reclamação → repercussão → conteúdo → mais discussão.
E o futebol corre o risco de transformar a própria polêmica em produto.
O futebol precisa disputar a atenção do público
Existe ainda um problema que vai muito além da arbitragem.
O futebol já não disputa a atenção do público sozinho.
Hoje, o torcedor pode escolher entre:
séries;
filmes;
YouTube;
redes sociais;
videogames;
podcasts;
streaming;
e inúmeras outras formas de entretenimento.
Isso significa que o futebol precisa entregar um produto interessante.
Não basta contar com a paixão histórica do brasileiro.
O jogo precisa prender a atenção.
E uma partida com ritmo, intensidade e continuidade naturalmente tem mais capacidade de fazer isso do que uma partida interrompida constantemente.
A questão não é transformar o futebol em um espetáculo sem faltas ou reclamações.
Isso seria impossível.
A questão é evitar que aquilo que acontece fora da disputa pela bola se torne mais importante do que a própria disputa.
A culpa é apenas da arbitragem?
Não.
E talvez esse seja o ponto central.
A arbitragem precisa melhorar.
Os jogadores precisam diminuir comportamentos que atrasam o jogo.
Os treinadores precisam controlar melhor o ambiente ao redor do campo.
Os dirigentes precisam avaliar o efeito de suas declarações.
A CBF precisa continuar aprimorando as regras e as tecnologias.
A imprensa precisa decidir quando uma polêmica realmente merece tanta atenção.
E o torcedor também precisa entender que nem toda derrota precisa ter um culpado externo.
Às vezes, o adversário simplesmente jogou melhor.
Estamos perdendo a graça ou apenas mudando o futebol?
Talvez dizer que “o futebol brasileiro está perdendo a graça” seja exagerado.
O campeonato continua competitivo.
As torcidas continuam apaixonadas.
Os estádios continuam recebendo grandes públicos.
E ainda existem partidas capazes de prender o torcedor do primeiro ao último minuto.
O problema é outro.
Existe um risco de o futebol brasileiro perder parte de sua atratividade se permitir que interrupções, reclamações e polêmicas ocupem espaço demais dentro das partidas.
E agora temos dados que mostram que o problema pode ser enfrentado.
A média de 52min54s de bola rolando não é uma opinião.
O aumento para 55min29s após as mudanças também não é.
São números.
Eles não provam que o futebol brasileiro está “sem graça”.
Mas mostram que existe espaço concreto para tornar os jogos mais fluidos.
O futebol não precisa ser perfeito
Talvez essa seja a conclusão mais importante.
Não precisamos de um futebol sem faltas.
Não precisamos de um futebol sem reclamações.
Não precisamos de um futebol em que nenhuma decisão seja contestada.
Precisamos de um futebol em que a bola esteja mais tempo em jogo e em que a discussão não seja maior do que o próprio jogo.
As mudanças de 2026 mostram que isso é possível.
A CBF identificou onde parte do tempo estava sendo perdida.
Criou novas regras.
E os primeiros números apontaram uma melhora.
Agora será preciso acompanhar se esse resultado se mantém ao longo de uma amostra maior.
É assim que uma mudança deveria ser avaliada:
com dados, comparação e tempo.
Não apenas pela impressão causada por um jogo.
Conclusão
O futebol brasileiro não está sem talento.
Não está sem torcida.
E certamente não está sem paixão.
Mas existe um problema que precisa ser enfrentado:
o jogo precisa voltar a ser o protagonista.
A bola precisa rolar mais.
As decisões precisam ser tomadas com mais rapidez.
A arbitragem precisa continuar evoluindo.
Os jogadores precisam entender que nem todo lance exige uma reclamação.
Os dirigentes precisam pensar no impacto de suas manifestações.
E nós, torcedores, também precisamos decidir o que queremos valorizar.
Porque existe uma diferença entre assistir a uma partida de futebol e assistir a uma discussão sobre futebol.
A primeira deveria continuar sendo muito mais interessante.
Talvez a pergunta não seja simplesmente:
“O futebol brasileiro está perdendo a graça?”
Talvez seja:
“Estamos fazendo tudo para que o jogo seja novamente a parte mais interessante da partida?”
Os primeiros dados mostram que existe espaço para melhorar.
Agora é preciso descobrir se jogadores, clubes, árbitros, dirigentes, imprensa e torcedores estão dispostos a fazer parte dessa mudança.
Porque, no fim, o torcedor não liga a televisão para assistir a uma discussão sobre futebol.
Ele liga para assistir ao futebol.
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