O futebol brasileiro virou La Liga? Palmeiras e Flamengo estão sobrando ou os outros grandes ficaram para trás?
Palmeiras e Flamengo conquistaram 7 dos últimos 10 Brasileiros. Mas essa hegemonia diz mais sobre a força dos dois ou sobre a dificuldade dos outros grandes em se organizar?
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Felipe Santana
8/29/20265 min read


O futebol brasileiro virou La Liga? A hegemonia de Palmeiras e Flamengo é um problema?
Palmeiras e Flamengo dominaram os últimos anos do Brasileirão. Mas talvez essa história diga menos sobre a força dos dois e muito mais sobre a dificuldade dos outros grandes clubes brasileiros de se organizarem.
Durante muito tempo, uma das maiores características do Campeonato Brasileiro foi a imprevisibilidade.
Era difícil saber quem seria campeão antes de a bola começar a rolar. Clubes diferentes conseguiam montar bons times, interromper ciclos de domínio e, eventualmente, levantar a taça.
Nos últimos anos, porém, alguma coisa mudou.
Palmeiras e Flamengo passaram a ocupar um espaço cada vez maior no topo do futebol brasileiro.
Nos dez campeonatos disputados entre 2016 e 2025, os dois conquistaram sete títulos. O Palmeiras venceu quatro vezes, enquanto o Flamengo levou outros três.
Isso significa que, em uma década, 70% dos Brasileiros ficaram concentrados em apenas dois clubes.
E em 2026 a história continua parecida.
Após 24 rodadas, o Palmeiras lidera o campeonato, enquanto o Flamengo segue entre os principais perseguidores.
A comparação com a La Liga, portanto, parece inevitável.
Mas talvez exista uma maneira ainda mais interessante de enxergar essa história.
Talvez o problema não seja Palmeiras e Flamengo
É muito fácil olhar para essa hegemonia e concluir que o futebol brasileiro está ficando concentrado demais.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes:
Palmeiras e Flamengo estão ficando fortes demais ou os outros clubes estão ficando fracos demais?
Porque existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Palmeiras e Flamengo não chegaram ao topo simplesmente porque decidiram gastar mais dinheiro.
Os dois passaram por processos de transformação que levaram anos.
O Flamengo começou sua grande reorganização financeira ainda na década passada. O clube saiu de uma situação de endividamento para construir uma estrutura capaz de gerar receitas maiores e sustentar investimentos esportivos.
O Palmeiras também construiu uma estrutura extremamente competitiva, combinando investimento, categorias de base e capacidade de negociação de jogadores.
O resultado aparece dentro e fora de campo.
Nos últimos anos, o clube paulista conseguiu transformar jogadores formados em casa em algumas das maiores vendas de sua história, como Endrick, Estêvão e Vitor Reis.
Não foi simplesmente uma questão de contratar melhor. Foi uma questão de construir melhor.
Enquanto isso, o que aconteceu com os outros grandes?
É aqui que a discussão fica mais incômoda.
Enquanto Palmeiras e Flamengo se consolidaram, vários dos principais clubes brasileiros passaram os últimos anos tentando resolver problemas financeiros, políticos e administrativos.
Corinthians, São Paulo, Santos e outros gigantes continuam convivendo com dívidas, problemas de fluxo de caixa e dificuldades para transformar seu tamanho histórico em vantagem esportiva.
O cenário chegou a um ponto em que clubes tradicionais passaram a enfrentar problemas relacionados ao mercado de transferências.
Em 2026, Corinthians, Santos e São Paulo estiveram entre os clubes brasileiros atingidos por problemas de transfer ban relacionados a dívidas. No caso do Santos, a punição foi posteriormente derrubada após o clube quitar uma dívida com o Monaco.
Isso é simbólico.
Como um clube pode competir pelo título brasileiro se em determinado momento sequer consegue contratar jogadores?
E o problema não é apenas esportivo.
É estrutural.
O tamanho da camisa não paga as contas
Talvez esse seja um dos grandes erros cometidos pelo futebol brasileiro.
Durante muito tempo, alguns clubes viveram como se o tamanho da torcida fosse suficiente para garantir competitividade.
Não é.
Ter milhões de torcedores ajuda.
Ter uma marca forte ajuda.
Ter uma história gigantesca ajuda.
Mas nada disso substitui uma administração eficiente.
E talvez Palmeiras e Flamengo tenham entendido isso antes dos outros.
O Flamengo transformou seu tamanho em capacidade de geração de receita.
O Palmeiras transformou sua estrutura em competitividade.
Os dois passaram a conseguir investir grandes quantias no futebol sem depender exclusivamente de uma temporada boa para sobreviver.
Hoje, Flamengo e Palmeiras são justamente os dois clubes que mais gastam no futebol brasileiro. Desde 2019, os dois investiram juntos mais de R$ 3,3 bilhões em contratações, segundo levantamento do ge.
Mas existe uma diferença importante:
eles conseguem gastar porque construíram uma estrutura que permite gastar.
Não é simplesmente gastar para tentar construir uma estrutura.
O perigo é os outros clubes tentarem copiar apenas a parte final
Esse talvez seja o maior erro.
Olhar para o Palmeiras e pensar:
"Precisamos contratar jogadores como o Palmeiras."
Ou olhar para o Flamengo e pensar:
"Precisamos gastar como o Flamengo."
Não.
O que os outros clubes deveriam tentar copiar é o processo que levou os dois até lá.
Organizar as contas.
Criar receitas recorrentes.
Investir na base.
Vender jogadores de maneira estratégica.
Profissionalizar departamentos.
Reduzir desperdícios.
Planejar o futebol para mais de uma temporada.
E, principalmente, parar de tratar cada eleição como se fosse o início de um novo clube.
Porque contratar dez jogadores em uma janela pode produzir um bom time.
Mas não constrói uma instituição sustentável.
E é por isso que Palmeiras e Flamengo continuam sobrando
Enquanto os outros clubes não resolverem seus próprios problemas, a tendência é que Palmeiras e Flamengo continuem encontrando espaço para dominar.
E isso não significa que eles vão ganhar todos os campeonatos.
O Botafogo mostrou em 2024 que é possível interromper a hegemonia.
O Atlético-MG fez isso em 2021.
Outros clubes podem fazer o mesmo.
Mas existe uma diferença entre conseguir montar um time excepcional durante uma temporada e conseguir permanecer no topo durante uma década.
É justamente aí que Palmeiras e Flamengo estão se diferenciando.
O Brasileirão está virando La Liga?
Talvez ainda não.
E seria exagero dizer que o campeonato brasileiro já se transformou em uma competição entre dois clubes.
O futebol brasileiro continua muito mais equilibrado do que o espanhol foi durante determinados períodos.
Mas os sinais estão aí.
Sete dos últimos dez Brasileiros foram conquistados por Palmeiras ou Flamengo.
E, em 2026, os dois novamente estão na parte de cima da tabela.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas:
"Como parar Palmeiras e Flamengo?"
Talvez a pergunta correta seja:
"Por que os outros grandes clubes não estão conseguindo fazer o mesmo processo de reconstrução?"
Porque enquanto Corinthians, São Paulo, Santos, Internacional e tantos outros continuarem gastando energia para resolver problemas que deveriam ter sido resolvidos anos atrás, Palmeiras e Flamengo terão uma vantagem enorme.
E talvez essa seja a parte mais importante dessa história.
A hegemonia de Palmeiras e Flamengo não é necessariamente um problema criado por eles.
Eles fizeram um bom trabalho, encontraram um modelo e colheram os frutos.
O problema é que poucos clubes conseguiram fazer o mesmo.
E enquanto isso não mudar, não importa quantas vezes os torcedores dos outros grandes reclamem da diferença financeira.
Palmeiras e Flamengo vão continuar sobrando por aqui.
O caso do São Paulo mostra que o problema não está apenas em ter menos dinheiro. Decisões esportivas e administrativas equivocadas também podem aumentar a distância para quem está fazendo um trabalho mais consistente.
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