Fluminense flerta com a eliminação e revive velhos problemas da Libertadores

Fluminense avança às quartas da Libertadores após vencer no agregado por 3 a 2, mas atuação preocupa e cenas pós-jogo reacendem debate sobre a violência nos estádios.

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Felipe Santana

9/16/20265 min read

Fluminense flerta com a eliminação e revive velhos problemas da Libertadores

O Fluminense está nas quartas de final da Libertadores. A classificação veio, o placar agregado terminou em 3 a 2 e, no papel, o objetivo foi alcançado. Mas seria um erro olhar apenas para o resultado e ignorar o que aconteceu durante a partida.

O Fluminense flertou perigosamente com a eliminação.

E o mais preocupante não foi apenas o futebol apresentado. Foi a maneira como o time entrou em campo no primeiro tempo, como se a vantagem construída no confronto fosse suficiente para resolver a classificação antes mesmo de a bola rolar.

Em uma quartas de final de Libertadores, isso é perigoso.

Um primeiro tempo que não combina com uma decisão

O Fluminense entrou muito mal na partida.

Errou passes, teve dificuldade para manter a posse e não conseguiu controlar o ritmo do jogo. Soteldo esteve muito abaixo do que pode produzir, Hércules também não conseguiu dar ao meio-campo a segurança necessária e Hulk ficou praticamente isolado no ataque.

E quando Hulk está sozinho, dependendo quase exclusivamente de bolas longas para tentar alguma coisa, fica muito mais difícil para o Fluminense transformar sua superioridade técnica em domínio dentro de campo.

O problema não era enfrentar um adversário tecnicamente superior.

Era justamente o contrário.

O Fluminense tinha mais qualidade e entrou no confronto com vantagem no placar agregado. Mas Libertadores não funciona apenas na lógica de quem tem o melhor elenco.

Fora de casa, existe um adversário empolgado, uma torcida pressionando e um jogo que pode ganhar uma intensidade completamente diferente daquela imaginada antes da partida.

Por isso, a postura inicial do Fluminense foi um erro.

Você pode administrar uma vantagem.

O que não pode é confundir administrar com entrar desligado.

A Libertadores não perdoa esse tipo de postura

Existe uma diferença enorme entre jogar com inteligência e jogar esperando o tempo passar.

O Fluminense parecia ter escolhido a segunda opção durante boa parte do primeiro tempo.

E esse tipo de comportamento pode custar muito caro em uma competição como a Libertadores.

Não importa se o adversário tem menos qualidade técnica. Não importa se você venceu o primeiro jogo. Não importa se, olhando para os elencos, existe uma diferença considerável.

Quando a bola começa a rolar, o jogo muda.

O time da casa ganha confiança, a torcida empurra e cada erro começa a parecer maior.

Foi justamente isso que o Fluminense permitiu durante o primeiro tempo.

Um time que entra em uma quartas de final precisa entender desde o primeiro minuto o tamanho da oportunidade que está disputando.

Não é necessário sair atacando desesperadamente.

Mas é necessário estar concentrado.

É necessário acertar passes.

É necessário disputar cada bola.

É necessário mostrar ao adversário que existe controle sobre a partida.

E isso faltou ao Fluminense nos primeiros 45 minutos.

No segundo tempo, o time finalmente entendeu o jogo

A mudança veio depois do intervalo.

O Fluminense passou a segurar mais a bola, conseguiu respirar um pouco mais e começou a controlar melhor o jogo.

Não foi uma atuação brilhante, mas foi uma postura mais compatível com aquilo que se esperava de uma equipe que precisava administrar uma vantagem.

E foi justamente em uma saída de contra-ataque que apareceu o gol que praticamente colocou a classificação nas mãos do Fluminense.

O gol mudou o cenário.

A equipe conseguiu sobreviver ao momento de pressão e confirmou a classificação com vitória no confronto agregado por 3 a 2.

No futebol, resultado também é parte da história.

O Fluminense conseguiu aquilo que precisava.

Está classificado.

Mas uma classificação não precisa esconder os problemas que apareceram durante os 90 minutos.

Pelo contrário.

É justamente quando um time consegue escapar de uma situação perigosa que ele precisa olhar para trás e entender o que quase deu errado.

A lição para a próxima fase é simples

Se o Fluminense quiser continuar avançando, precisa aprender com esse jogo.

A vantagem é importante.

A qualidade do elenco também.

Mas nenhuma dessas duas coisas permite que uma equipe entre em uma quartas de final de Libertadores tão desligada quanto entrou no primeiro tempo.

Na próxima fase, um adversário mais forte pode não oferecer uma segunda oportunidade.

Um erro de passe pode virar uma chance.

Uma perda de bola pode virar gol.

Um primeiro tempo ruim pode colocar todo o planejamento abaixo.

O Fluminense sobreviveu dessa vez.

Mas sobreviver não pode virar estratégia.

E depois do jogo veio o velho problema da Libertadores

Se dentro de campo o Fluminense deixou um alerta, fora dele apareceu outro problema que infelizmente já se tornou conhecido no futebol sul-americano.

Depois da classificação, torcedores do adversário invadiram o campo, retiraram uma faixa ligada ao Fluminense e houve arremesso de objetos em direção ao setor destinado aos torcedores visitantes.

É justamente aqui que precisamos parar de tratar determinadas cenas como se fossem simplesmente “parte da Libertadores”.

Não são.

A rivalidade faz parte do futebol.

A provocação faz parte do futebol.

A paixão faz parte do futebol.

Mas invasão de campo, retirada de materiais da torcida adversária e arremesso de objetos em direção aos visitantes ultrapassam uma linha que não deveria ser aceita como normal.

O futebol mudou.

A sociedade mudou.

A forma como os estádios são tratados também precisa mudar.

O que talvez décadas atrás fosse encarado como uma espécie de folclore do futebol sul-americano hoje precisa ser tratado com seriedade.

A Conmebol precisa deixar de normalizar essas cenas

Não basta aparecer depois de um problema para lamentar o ocorrido.

É preciso existir consequência.

Os envolvidos precisam ser identificados quando houver condições para isso e, comprovada a participação, sofrer as punições previstas.

Da mesma forma, os clubes precisam responder quando houver falhas de segurança que permitam invasões ou coloquem torcedores em risco.

Isso não significa acabar com a atmosfera da Libertadores.

Significa proteger aquilo que realmente torna a competição especial.

O torcedor visitante precisa poder assistir ao jogo.

O jogador precisa poder comemorar uma classificação sem que isso se transforme em uma situação de risco.

E a rivalidade precisa continuar existindo sem que violência e intimidação sejam tratadas como elementos obrigatórios do espetáculo.

E esse não é o primeiro episódio preocupante envolvendo torcedores e comportamento nas arquibancadas em jogos de Libertadores. O futebol sul-americano já passou por situações ainda mais graves, como os episódios de racismo sofridos por Hugo Souza. Afinal, até quando cenas como essas serão tratadas como parte do espetáculo?

Leia também: Hugo Souza sofre racismo na Libertadores: até quando isso será tratado como “normal” no futebol sul-americano?

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O futebol sul-americano precisa escolher o que quer preservar

A Libertadores tem uma atmosfera diferente de qualquer outra competição.

O estádio cheio, a pressão, as músicas, a rivalidade e a paixão das torcidas fazem parte da identidade do torneio.

Mas existe uma diferença entre preservar a paixão e preservar comportamentos que colocam pessoas em risco.

Não precisamos admirar uma invasão de campo porque ela aconteceu em um estádio sul-americano.

Não precisamos achar bonito quando torcedores tentam atingir o setor visitante.

E não precisamos esperar que algo mais grave aconteça para discutir punições.

O futebol pode ser intenso sem ser violento.

Pode ser apaixonado sem ser hostil.

Pode ter rivalidade sem transformar o torcedor adversário em inimigo.

O Fluminense avança, mas leva dois alertas

O Fluminense conseguiu a classificação.

E isso é o que ficará registrado na história.

Mas a partida deixa duas lições importantes.

A primeira é para o próprio Fluminense: não existe vantagem suficiente que permita entrar desligado em uma quartas de final de Libertadores.

A segunda é para o futebol sul-americano: não podemos continuar tratando cenas de invasão, violência e intimidação como se fossem apenas o “suco da Libertadores”.

O Fluminense escapou dentro de campo.

A Libertadores, mais uma vez, mostrou que ainda precisa evoluir fora dele.

Porque a competição não precisa perder sua paixão para ganhar mais segurança.

Precisa apenas entender que uma coisa nunca deveria depender da outra.